O Brasil Virou Potência da NBA
Quando Adam Silver, comissário da NBA, lista os cinco maiores mercados do mundo para o basquete americano, três nomes surpreendem: Estados Unidos, China e Brasil. Não o Reino Unido. Não a Espanha. O Brasil, o país do futebol, onde o basquete divide espaço com a paixão mais antiga da nação.
Os números confirmam o que muita gente ainda não percebeu. De acordo com pesquisa do Ibope Repucom, 53 milhões de brasileiros se declaram fãs da NBA. Para comparar: são mais pessoas do que a população inteira da Coreia do Sul. E esse número está crescendo rápido, especialmente entre os jovens.
Como o Brasil virou potência do basquete sem perceber
A história começa antes mesmo da febre da NBA no país, com Oscar Schmidt, um jogador tão grande que conquistou reconhecimento internacional mesmo sem nunca ter atuado na liga. Oscar optou por não jogar na NBA para manter sua elegibilidade na seleção brasileira, já que, na época, atletas da liga não podiam disputar competições internacionais. Ainda assim, seu impacto global foi tão relevante que teve sua camisa aposentada pelo Brooklyn Nets (franquia que herdou a história do New Jersey Nets), um feito raríssimo para alguém que nunca jogou na liga. Além disso, ficou marcado como um dos grandes algozes da seleção dos Estados Unidos, especialmente pela atuação histórica no Pan de 1987, quando liderou o Brasil em uma vitória emblemática dentro do território americano. Esse reconhecimento ajuda a explicar como o Brasil, mesmo distante do centro do basquete mundial, já produzia ídolos capazes de atravessar fronteiras.
A história continua nos anos 1990, com Michael Jordan. As transmissões esporádicas do Chicago Bulls na TV brasileira transformaram o camisa 23 em ídolo nacional, antes mesmo de qualquer jogador brasileiro pisar numa quadra da NBA. O Dream Team de 1992 nas Olimpíadas, Space Jam em 1996, cada momento desse era um tijolo a mais na fundação de uma torcida que cresceria por décadas.
Depois vieram os brasileiros que fizeram história na liga: Tiago Splitter, campeão em 2014 pelo San Antonio Spurs; Leandrinho, eleito Sexto Homem do Ano em 2006-07; Nenê e Varejão, que passaram mais de uma década em alto nível. Eles criaram uma ponte emocional entre o torcedor brasileiro e um esporte que, tecnicamente, nunca foi “deles”.
A internet fez o resto. Com YouTube, Instagram e TikTok, os highlights da NBA passaram a chegar em segundos para qualquer brasileiro com um celular na mão. E tem mais: os jogos acontecem à noite, no horário de Brasília. Sem fuso horário desfavorável, o streaming ganhou uma audiência que antes dormia antes da bola subir.
“Nós nos consideramos muito mais uma empresa de conteúdo e entretenimento do que uma liga esportiva.” Arnon de Mello, vice-presidente da NBA na América Latina
Os números que a NBA não quer que você ignore
A temporada 2023-24 foi histórica para o Brasil. O total de horas assistidas de jogos ao vivo no YouTube cresceu 51% em relação ao ano anterior. O número de assinantes do NBA League Pass subiu 28% na América Latina. Em eventos presenciais, 45 mil pessoas pagaram R$ 150 por ingresso para assistir às Finais de 2024 na NBA House em São Paulo.
A liga também virou negócio físico no Brasil. Mais de 30 lojas oficiais espalhadas por 11 estados, um NBA Park em Gramado (RS), o maior parque temático da NBA no mundo, e mais de 200 escolas de basquete com 12 mil alunos ativos. Isso não é presença de nicho. É estratégia de longo prazo.
Entre os jovens de 11 a 24 anos, a NBA já é a quarta competição mais acompanhada do país, atrás apenas do Brasileirão, da Libertadores e da Champions League. Em 2019, eram 6,4 milhões de jovens fãs. Em 2023, esse número chegou a 20 milhões. Em quatro anos, triplicou.
E o NBB? A liga brasileira que poucos conhecem
Enquanto a NBA conquista fãs aqui, existe uma liga profissional de basquete nacional que joga semana após semana com pouca cobertura midiática: o Novo Basquete Brasil (NBB). Com 20 equipes na temporada 2025-26, transmissão pelo ESPN Brasil, SporTV e YouTube, o NBB tem qualidade, mas carece do que faz uma liga virar fenômeno: visibilidade em massa.
A boa notícia é que a conexão entre as duas ligas é real. Em dezembro de 2014, a Liga Nacional de Basquete (LNB) firmou uma parceria inédita com a NBA, tornando o Brasil a primeira liga do mundo a ter a maior liga de basquete do planeta como parceira oficial. O acordo vai até 2028 e inclui troca de conhecimento, desenvolvimento de base e ações conjuntas de marketing.
A liga de base (LDB, sub-22) já revelou talentos que chegaram à NBA: Gui Santos, Bruno Caboclo e Cristiano Felício passaram por ela. Na temporada 2025-26, o Brasil tem três jogadores com contrato ativo na NBA: Gui Santos (Golden State Warriors), Tristan da Silva (Orlando Magic) e Nathan Mariano (Phoenix Suns).
Gui Santos tem ganhado espaço no Golden State Warriors, especialmente em momentos de lesões no elenco. O brasileiro renovou recentemente seu contrato por três anos e cerca de US$ 15 milhões, consolidando a confiança da franquia em seu desenvolvimento e potencial dentro da rotação.
O que falta para o basquete virar esporte nacional de verdade
Ter 53 milhões de fãs é o começo. Mas fãs da NBA que não sabem o nome de nenhum jogador do NBB são fãs de produto importado, não de esporte nacional. Para fechar esse gap, alguns caminhos são claros:
- TV aberta nos playoffs: quem tem mais de 40 anos lembra do basquete na Globo, com 15 mil pessoas no Ibirapuera. Voltar ao horário nobre, mesmo que nos playoffs do NBB, alcançaria dezenas de milhões de lares sem streaming.
- Atletas como celebridades: a NBA vende Jordan antes de vender basquete. O NBB precisa de rostos no metrô, nas campanhas, nos podcasts. Georginho de Paula existe. A maioria dos brasileiros nunca ouviu esse nome.
- Arenas à altura: a NBA interrompeu os jogos de pré-temporada no Brasil justamente porque faltava infraestrutura. Uma arena moderna em São Paulo ou Rio mudaria essa equação e abriria portas para eventos oficiais da liga americana.
- Basquete nas escolas: o futebol é popular porque está em todo lugar. O basquete tem uma vantagem real, pois precisa de menos espaço. Uma quadra cabe onde nem metade de um campo de futebol cabe.
- Jogos da NBA no Brasil: a NBA Cup e outros formatos alternativos abrem espaço para isso. Seria o maior evento de basquete da história do país e já existe demanda comprovada.
O cenário em 2026: otimismo com ressalvas
O basquete brasileiro nunca esteve em posição tão favorável. A audiência cresce, a parceria com a NBA é sólida, e uma nova geração de jogadores está emergindo com estrutura melhor do que qualquer geração anterior.
Mas existe uma armadilha nesse cenário: confundir fãs de NBA com fãs de basquete. Se o NBB não ganhar visibilidade proporcional ao crescimento da liga americana no Brasil, o país seguirá sendo um grande mercado consumidor de produto importado, não um país com esporte nacional de quadra.
A diferença é enorme. E o caminho para atravessá-la já está traçado. Agora é uma questão de vontade, investimento e narrativa. Afinal, o Brasil já provou que sabe criar ídolos esportivos do nada e transformá-los em paixão nacional.
O basquete está esperando a sua vez.
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